COZINHAS DE TERREIRO

 

Pactuação das 15 cozinhas ancestrais solidárias sob gestão do Instituto Cultural Águas do Amanhã, a partir do edital 014/2024 do Programa de Cozinhas Solidárias do MDS. Evento realizado em novembro de 2024, em Sepetiba, RJ.

Pactuação das 15 cozinhas ancestrais solidárias sob gestão do Instituto Cultural Águas do Amanhã, a partir do edital 014/2024 do Programa de Cozinhas Solidárias do MDS. Evento realizado em novembro de 2024, em Sepetiba, RJ.

O QUE SÃO AS COZINHAS DE TERREIRO?

As cozinhas solidárias presentes nos terreiros de religiões de matriz africana são muito mais do que ações de combate à fome, são manifestações vivas de cuidado coletivo, ancestralidade e resistência. Nesses espaços sagrados, onde a espiritualidade caminha lado a lado com a comunidade, alimentar o outro é também um gesto de axé, de partilha e de conexão com forças que sustentam a vida.

Além disso, essas cozinhas enfrentam um desafio silencioso: o racismo alimentar, que marginaliza e desvaloriza saberes, ingredientes e práticas culinárias negras, relegando-os a estereótipos ou invisibilidade. Ao abrir suas portas e partilhar seus saberes, as cozinhas de terreiro não apenas alimentam, elas quebram preconceitos, recontam histórias e afirmam o valor de uma cultura que resiste há séculos.

Historicamente dedicados à proteção e ao bem-estar de seus povos, os terreiros também se estabelecem como refúgios de solidariedade ativa. Em momentos de crise social, econômica ou sanitária, organizam-se para garantir alimento, acolhimento e dignidade a todos, sem distinção. Essa prática traduz a resistência de um povo que, apesar das tentativas de apagamento, transforma cada panela no fogo em um ato de existência, cada refeição em um manifesto contra a fome e a exclusão.

 

INSTITUTO CULTURAL ÁGUAS DO AMANHÃ

Crédito: Águas do Amanhã.

Situado em Sepetiba (RJ), o Instituto Cultural Águas do Amanhã nasce no coração do terreiro como um movimento de resistência, memória e construção do futuro. Em sua essência, une espiritualidade, ancestralidade e ação concreta, reafirmando que a comida é um elo entre o sagrado, o território e o coletivo.

Atua de forma integrada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável a partir de uma perspectiva própria: a dos povos de matrizes africana, em que os orixás são referências de prosperidade, cura, justiça e caminhos possíveis.

A Cozinha Ancestral Solidária Ilê Inã, um dos projetos do instituto, une resgate cultural, fé e combate à fome, transformando cozinhas de terreiro em centros de fortalecimento comunitário. Mais que produzir refeições, a cozinha preserva a ancestralidade no preparo dos alimentos, garantindo acesso à comida de qualidade enquanto reafirma identidade, espiritualidade e pertencimento comunitário

O projeto oferece dignidade às famílias atendidas, segurança e soberania alimentar, fortalece mulheres negras, cis e trans e constrói redes de solidariedade que transformam o território pela cultura, pela fé e pelo alimento.

O ICAA tornou-se referência no combate à fome e na promoção da segurança e soberania alimentar ancestral no RJ, articulando mais de 100 mil refeições e fortalecendo redes comunitárias. Mais que números, representa a força da coletividade!

 

 

DIFERENÇA DAS NAÇÕES

Os terreiros de religiões de matriz africana são espaços sagrados onde diferentes tradições, chamadas de nações, mantêm vivos os cultos aos orixás, inquices, voduns e encantados. Divindades ancestrais que atravessaram o Atlântico com os povos africanos escravizados e se enraizaram profundamente no Brasil. Cada nação carrega origens, línguas, rituais e modos de organização próprios. A Nação Ketu, por exemplo, tem raízes iorubás e cultua os orixás, com forte presença na Bahia e em outras regiões do país. Seus ritos são marcados por cânticos em iorubá, uso de atabaques e uma organização litúrgica bastante difundida no Candomblé. Já os terreiros de nação Angola remetem aos povos bantu e cultuam os inquices, com cânticos em kimbundu ou quicongo e uma musicalidade mais cadenciada. Seus rituais têm um ritmo diferente, com danças que expressam forte ligação com a terra e os ciclos da natureza. A Nação Jeje, por sua vez, tem origem entre os povos fon e ewe, cultuando os voduns. Seus rituais trazem uma estética própria, com cantos em fon e uma relação simbólica muito rica com o panteão de divindades que rege os elementos da vida. Mesmo com essas diferenças, o que une todas as nações é o respeito às ancestralidades, o compromisso com a espiritualidade e o acolhimento à comunidade. Cada terreiro, com sua tradição única, é um centro de força, cultura e resistência.

 

AJEUM – COMER JUNTO

AJEUM – COMER JUNTO Nas religiões de matriz africana, ajeum é mais do que uma refeição, é um ritual de partilha, onde se oferece alimento aos orixás e se nutre, juntos, corpo e espírito. Comer em comunhão é um gesto de fé, gratidão e pertencimento. É nesse encontro à mesa que a ancestralidade se fortalece e os laços da comunidade se renovam. Inspiradas por esse princípio sagrado, as Cozinhas Solidárias de terreiro seguem resistindo onde a fome se impõe. Em meio à pandemia, ao desemprego e à desigualdade, elas brotam nos territórios mais vulnerabilizados, oferecendo comida, cuidado e dignidade. Com criatividade e consciência ambiental, essas cozinhas aproveitam cada parte dos alimentos — talos, cascas, folhas, sementes — para compor refeições nutritivas e acolhedoras. Esses alimentos são distribuídos gratuitamente por mãos voluntárias que cozinham não só com técnica, mas com afeto e muito axé. Mais do que fornecer alimento, cada cozinha se transforma em espaço coletivo de educação nutricional, geração de renda e valorização do saber popular. Ali, moradores, lideranças e voluntários se encontram para trocar experiências, cultivar autonomia e alimentar a esperança. Essa corrente solidária afirma o direito à alimentação como pilar da dignidade humana. Engaje-se, compartilhe, fortaleça. Porque a solidariedade também serve à mesa.

 

O QUE SÃO ITANS?

Nesta aba, abrimos espaço para contar itans — histórias sagradas que atravessam gerações, preservadas na oralidade dos terreiros, onde a comida nunca é apenas comida. Cada ingrediente, cada preparo, cada ritual à mesa carrega um sentido profundo, um ensinamento, um elo com o divino. Nos itans das religiões de matriz africana, o alimento aparece como oferenda, pacto, sabedoria e transformação. É com farinha, azeite, inhame, milho, dendê e tantos outros elementos da terra que os orixás, inquices e voduns se comunicam com os humanos, ensinam caminhos e sustentam a vida. Aqui, você vai encontrar narrativas que mostram como o ato de cozinhar e comer também é espiritual. São histórias que fortalecem a ancestralidade, honram a natureza e ensinam que partilhar o alimento é, antes de tudo, partilhar o axé.

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